Há uma diferença pequena na forma e enorme no efeito entre dizer “vote em X” e responder que, considerando renda, cidade, idade e prioridades, a candidatura mais próxima do usuário é X. A primeira frase soa como recomendação. A segunda chega vestida de análise personalizada. Para quem pediu ajuda a uma ferramenta que parece conhecer o assunto, as duas podem terminar no mesmo lugar.
Esse é um dos problemas que o primeiro boletim da pesquisa “Papo de IA”, divulgado pelo InternetLab em 23 de setembro de 2026, colocou diante da Justiça Eleitoral. Os pesquisadores testaram oito chatbots em milhares de interações sobre candidaturas e integridade do voto. As ferramentas muitas vezes recusaram a indicação direta, mas continuaram a organizar nomes e propostas segundo o perfil informado na conversa.
Uma IA pode informar quem são os candidatos e apresentar propostas com fontes verificáveis. Nas Eleições 2026, porém, a Resolução TSE nº 23.755/2026 proíbe que sistemas de inteligência artificial ranqueiem, recomendem, sugiram ou priorizem candidaturas, mesmo a pedido do usuário. A vedação também alcança favorecimento ou desfavorecimento indireto. Por isso, uma frase de recusa no início da resposta não basta se o restante da conversa conduz o eleitor a um nome.
A pergunta que parece apenas prática
“Qual candidato combina mais comigo?” é uma pergunta compreensível. Planos de governo são extensos, entrevistas se acumulam e a propaganda simplifica diferenças importantes. Um chatbot promete reduzir o trabalho: recebe algumas preferências, cruza dados e devolve uma síntese em segundos.
O problema aparece quando a síntese assume a forma de escolha. Nenhum modelo lê propostas a partir de um ponto de vista neutro e completo. Alguém definiu quais fontes entram, quais critérios serão valorizados, como informações conflitantes serão resolvidas e qual peso terá cada tema. Mesmo sem intenção partidária, essas decisões influenciam a conclusão.
Há ainda a personalização. Duas pessoas podem formular a mesma dúvida e receber respostas diferentes em razão do histórico da conversa, das palavras usadas, do modelo disponível naquele momento e das salvaguardas acionadas. A recomendação política deixa de ser uma página pública, que todos podem examinar, e passa a ocorrer numa conversa privada, variável e difícil de reproduzir.
O que o TSE proibiu para 2026
A Resolução TSE nº 23.755, de 2 de março de 2026, alterou as regras da propaganda eleitoral na internet. O novo § 1º-C do artigo 28 da Resolução nº 23.610/2019 dirige-se aos provedores de aplicação que oferecem sistemas de inteligência artificial ou tecnologia equivalente.
O texto veda, ainda que o usuário peça, quatro condutas centrais: ranquear, recomendar, sugerir ou priorizar candidatas, candidatos, campanhas, partidos, federações ou coligações. Também proíbe emitir opiniões, indicar preferência eleitoral, recomendar voto e favorecer ou desfavorecer participantes da disputa de forma direta ou indireta, inclusive por respostas automatizadas.
A expressão “de maneira direta ou indireta” impede uma leitura puramente literal. Um sistema não se torna regular apenas porque evita a frase “eu recomendo”. Se a resposta atribui notas, ordena nomes, elege a proposta “mais equilibrada” ou relaciona uma candidatura ao perfil do interlocutor, pode haver o mesmo efeito que a norma procurou conter.
Isso não significa que toda comparação seja ilícita. Há espaço para fornecer dados, resumir propostas, indicar divergências e direcionar o usuário a documentos oficiais. A fronteira depende da estrutura da resposta: seleção das candidaturas, critérios, ordem, adjetivos, equilíbrio entre informações favoráveis e críticas, fontes e conclusão entregue ao eleitor.
A recusa que continua escolhendo
Uma resposta pode começar corretamente: “não posso indicar em quem você deve votar”. Em seguida, porém, o chatbot pergunta quais temas importam mais, recebe a informação de que o usuário valoriza segurança e controle de gastos, compara plataformas políticas e aponta o nome que considera mais alinhado. A recomendação não desapareceu. Ela apenas ganhou mais etapas.
O estudo do InternetLab encontrou esse desenho com frequência. Em 42% das respostas do eixo “Votos e Candidaturas”, houve recusa expressa à indicação solicitada. Ao mesmo tempo, entre as ocorrências classificadas nesse eixo, 68,5% confirmaram ou desenvolveram a premissa apresentada pelo usuário. Os autores resumem o impasse com precisão: recusar o pedido e atender à sua substância podem acontecer na mesma resposta.
Esse comportamento costuma parecer prestativo. A ferramenta evita uma ordem explícita e oferece algo que chama de contexto. Só que a seleção do contexto já contém escolhas. Quando um sistema afirma que uma proposta é “mais realista”, “mais responsável” ou “mais completa”, aplica critérios políticos e econômicos que deveriam estar visíveis e sujeitos a contestação.
O que a pesquisa mediu
O boletim analisou ChatGPT, Claude, Copilot, DeepSeek, Gemini, Google AI Mode, Grok e Meta AI. Foram 1.679 conversas simuladas, com 18.360 turnos de perguntas e respostas, coletadas entre 27 e 31 de agosto de 2026. Os perfis variaram posição política, gênero, idade, escolaridade e estilo de interação.
Em todas as plataformas apareceram respostas que relacionaram candidaturas às preferências ou características do usuário. A incidência variou de 49,6% das conversas no ChatGPT a 98% no DeepSeek. A indicação direta oscilou de 4% no Claude a 88,2% no DeepSeek. O ranqueamento ficou entre 3% no Google AI Mode e 63% no DeepSeek e no Gemini.
Os números precisam ser lidos com os limites apresentados pelos próprios pesquisadores. O levantamento é um diagnóstico de padrões, não uma decisão judicial nem uma certificação individual de descumprimento. Modelos mudam, a mesma pergunta pode produzir saídas diferentes e a classificação combinou automação com validação humana. A coleta retrata cinco dias de agosto, não um comportamento imutável de cada serviço.
Essas cautelas não esvaziam o resultado. Elas mostram por que testar uma única pergunta no celular é insuficiente para avaliar conformidade. Uma salvaguarda pode funcionar na primeira tentativa e ceder depois de insistência, mudança de vocabulário ou inclusão de dados pessoais.
Personalizar também é exercer poder editorial
Um jornal publica um editorial e assume sua posição. Uma campanha assina a própria propaganda. Um instituto de pesquisa explica amostra, margem de erro e metodologia. Já o chatbot produz uma resposta com aparência individual, sem que o eleitor veja com clareza de onde vieram os critérios ou quantas alternativas foram descartadas.
A autoridade percebida da ferramenta amplia o problema. Textos fluidos, tabelas e explicações seguras podem fazer uma avaliação contingente parecer conclusão técnica. A linguagem encobre incertezas quando não separa fatos verificáveis de inferências e juízos de valor.
O risco não está apenas numa preferência fixa escondida no modelo. Um sistema pode concordar demais com o interlocutor, reforçar suspeitas ou reorganizar fatos para manter a conversa agradável. No eixo de integridade eleitoral, o boletim registrou variações relevantes conforme o estilo e a posição política do perfil simulado. A ferramenta capaz de se adaptar a cada pessoa também pode entregar versões incompatíveis do mesmo debate público.
Informação eleitoral continua permitida
A regra não transforma o chatbot em assunto proibido durante a eleição. O eleitor pode pedir uma explicação sobre cargos, datas, documentos, regras de votação ou propostas registradas. Também pode solicitar uma tabela factual, desde que os critérios não funcionem como um ranking disfarçado e que as fontes possam ser conferidas.
Uma resposta mais segura descreve divergências sem eleger vencedores. Em vez de perguntar “quem é melhor para a economia?”, o usuário pode pedir: “quais são as propostas registradas para tributação, emprego e dívida pública, com links para os programas oficiais, sem notas nem recomendação?”. A formulação não elimina erros, mas reduz o espaço para uma escolha opaca.
- confira candidaturas e planos de governo no sistema DivulgaCandContas do TSE;
- peça links para a fonte original e abra os documentos citados;
- desconfie de notas, rankings e adjetivos sem critério verificável;
- repita a consulta com formulações neutras e compare as respostas;
- não informe dados pessoais desnecessários para receber uma síntese política;
- guarde a conversa completa se houver possível favorecimento eleitoral, com data, modelo e versão disponíveis.
A Central do Google Trends para as Eleições 2026 também faz um alerta útil: volume de busca mede interesse, não intenção de voto nem apoio. O mesmo cuidado vale para chatbots. Frequência de menções, ordem de nomes e popularidade na internet não demonstram qualidade de programa ou preferência do eleitorado.
Fiscalizar uma conversa variável
A Procuradoria-Geral Eleitoral instaurou procedimento para apurar suspeitas relacionadas à atuação de plataformas de IA e pediu informações ao TSE, conforme noticiado em 4 de setembro de 2026. A existência do procedimento não equivale a condenação. Ela confirma, porém, que o tema saiu do plano hipotético e chegou à fiscalização institucional.
A prova será um desafio. Capturas isoladas podem demonstrar uma resposta, mas dizem pouco sobre a frequência do comportamento. Testes em escala revelam padrões, embora exijam metodologia transparente e possibilidade de contraditório. Planos de conformidade das empresas ajudam a entender salvaguardas prometidas, mas precisam ser comparados com o funcionamento efetivo.
O blog da LPR já examinou a diferença entre promessa e comportamento ao tratar dos relatórios de transparência das plataformas. Em matéria eleitoral, a dificuldade cresce porque cada conversa pode ser personalizada e desaparecer da esfera pública.
O problema não é só o conteúdo fabricado
O debate sobre IA e eleição costuma começar por vídeos falsos. Eles são visíveis, circulam em massa e permitem apontar o arquivo problemático. A LPR explicou essas regras no artigo sobre deepfakes nas Eleições 2026.
A conversa personalizada é menos cinematográfica. Não falsifica necessariamente uma voz nem inventa uma cena. Ela pode influenciar pela ordem, pelo enquadramento e pelo modo de traduzir preferências pessoais em proximidade eleitoral. O conteúdo parece ter sido produzido apenas para ajudar quem perguntou, e justamente por isso escapa com facilidade ao olhar coletivo.
Nas eleições de 2026, a qualidade da informação dependerá também dessas pequenas conversas privadas. A frase “não posso escolher por você” é um começo adequado. Para cumprir sua função, o restante da resposta precisa deixar a escolha realmente nas mãos do eleitor.
Perguntas frequentes
A IA pode indicar em quem votar nas Eleições 2026?
Não. A Resolução TSE nº 23.755/2026 proíbe que provedores de sistemas de IA ranqueiem, recomendem, sugiram ou priorizem candidaturas, mesmo quando o usuário solicita. Também veda favorecimento ou desfavorecimento direto ou indireto.
O chatbot pode comparar propostas?
Pode fornecer informação factual e explicar diferenças. A resposta se torna juridicamente sensível quando a comparação usa notas, ordem, adjetivos ou critérios que funcionam como indicação ou preferência eleitoral.
Uma resposta irregular prova que a plataforma sempre age assim?
Não. Ela documenta aquela interação. Como as respostas variam, a avaliação de um padrão exige contexto, repetição, registro da versão e metodologia. A resposta isolada ainda pode ser relevante para uma apuração concreta.
Onde conferir informações oficiais sobre candidaturas?
O portal DivulgaCandContas, do TSE, reúne registros, dados de candidaturas, programas de governo e prestação de contas. Informações sobre votação e regras eleitorais devem ser verificadas nos canais oficiais da Justiça Eleitoral.
A LPR Advocacia atua com direito digital, responsabilidade de plataformas e preservação de provas em ambientes digitais. Para análise jurídica de uma situação concreta envolvendo sistemas automatizados ou conteúdo eleitoral, fale com a equipe pelo WhatsApp.
Referências
- Tribunal Superior Eleitoral. Resolução nº 23.755, de 2 de março de 2026.
- InternetLab, LabDados/FGV e ReCoS. Papo de IA, Boletim 1, setembro de 2026.
- InternetLab. Nem só ranquear, nem só indicar, 23 set. 2026.
- Data Privacy Brasil. Observatório IA nas Eleições lança relatório sobre chatbots.
- Tribunal Superior Eleitoral. Plano de conformidade e barreiras contra recomendação de voto, setembro de 2026.
- Google Trends. Central Eleições 2026.
- Tribunal Superior Eleitoral. DivulgaCandContas 2026.